Como a comunicação pode prevenir o abuso sexual de crianças e adolescentes

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Como a comunicação pode prevenir o abuso sexual de crianças e adolescentes

O abuso sexual contra crianças e adolescentes é um crime silencioso que deixa marcas profundas e, muitas vezes, invisíveis.

Em muitos casos, ele impede o desenvolvimento saudável da infância e da juventude, criando traumas duradouros.

Segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos, as denúncias de abuso e exploração sexual de menores cresceram 195% nos últimos quatro anos.

Em 2020, o Disque 100 registrou 6.380 casos; em 2024, esse número saltou para 18.826.

No Brasil, uma criança ou adolescente é vítima de violência sexual, física ou psicológica a cada cinco minutos, somando mais de 115 mil casos por ano, de acordo com o Atlas da Violência 2025.

A comunicação clara e aberta pode prevenir situações assim e contribuir para proteger crianças e adolescentes.

A neuropsicopedagoga, coach parental e especialista em educação sexual Angélys Ariadne Silva alerta: “A prevenção começa em casa, com diálogo sincero, linguagem adequada e um ambiente de confiança”.

Começo de tudo: confiança e vínculo

Falar sobre abuso sexual não é tarefa fácil, mas é necessário. E a chave para isso é criar um espaço seguro para o diálogo.

“Fortalecer a comunicação com os filhos exige mais do que falar. Exige escutar com atenção, estar presente e construir um vínculo em que a criança sinta que pode contar tudo sem medo de ser julgada ou punida”, explica Angélys.

Desde cedo, os pais devem ensinar às crianças que seu corpo é seu território. Nomear corretamente as partes do corpo, inclusive as íntimas, e deixar claro que ninguém pode tocá-las sem consentimento são passos importantes.

“Segredos que causam medo ou tristeza nunca devem ser guardados. A criança precisa saber que pode e deve contar tudo para um adulto de confiança.”

Quando começar a conversa?

A orientação é clara: quanto mais cedo, melhor. “A educação sexual começa no ventre”, afirma Angélys. Mas é preciso adaptar o conteúdo à idade e ao nível de compreensão da criança:

0 a 2 anos: Ensine os nomes corretos do corpo, explique que partes íntimas são privadas e devem ser protegidas.

3 a 6 anos: Fale sobre limites e tipos de toques (carinho, cuidado, toque que incomoda). Estimule o hábito de contar como foi o dia.

7 a 9 anos: Introduza as quatro regras de proteção (Dizer não, Gritar, Sair de perto, Contar a um adulto). Explique sobre riscos físicos e virtuais.

10 anos ou mais: A conversa precisa ser direta e aberta. Sexualidade, redes sociais, mudanças corporais, tudo deve entrar na pauta com naturalidade.

A especialista reforça: “Se você não conversar com seu filho sobre isso, a internet ou os colegas o farão — e nem sempre com a verdade”.

Os sinais que merecem atenção

Nem toda criança consegue verbalizar o abuso. Muitas vezes, o corpo e o comportamento falam primeiro. Veja alguns alertas que não devem ser ignorados:

Medo súbito de pessoas ou lugares antes familiares

Regressão de comportamento (voltar a fazer xixi na cama, chupar o dedo)

Comportamento sexualizado precoce

Agressividade, apatia, isolamento

Queda no rendimento escolar

Ferimentos ou infecções sem causa aparente nas partes íntimas

Olhar triste, sem brilho, e até sinais de cleptomania

“Um único sinal não é prova de abuso, mas deve acender um alerta. O acolhimento e o acompanhamento profissional são essenciais”, orienta Angélys Ariadne.

O papel dos adultos: todos têm responsabilidade

A prevenção do abuso sexual de crianças e adolescentes não é só dos pais. Educadores, cuidadores e líderes religiosos ou comunitários também devem estar atentos. Algumas atitudes ajudam a formar essa rede de proteção:

Falar sobre o corpo, emoções e segurança sem tabus

Ensinar a identificar adultos confiáveis

Ouvir com empatia e nunca desacreditar relatos

Capacitar educadores para reconhecer e agir diante de sinais de abuso

Monitorar o uso de internet e redes sociais

Conhecer e divulgar os canais de denúncia, como o Disque 100

Em tempos de hiperconectividade, o silêncio ainda é o maior aliado do agressor. Quebrá-lo, com coragem, informação e empatia, é o primeiro passo para garantir a infância protegida que toda criança merece. Ampliar a comunicação é fundamental.

Se você suspeita ou tem conhecimento de um caso de abuso, não hesite: denuncie. A proteção das crianças é um dever de todos.

Luzimar Collares é jornalista em MT.