A comunicação é uma poderosa ferramenta de persuasão. Quem atua no meio jurídico sabe disso e geralmente é treinado para saber usar os métodos que considera mais eficazes.
No julgamento dos réus acusados de participação na tentativa de golpe de Estado, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) presenciou, além dos argumentos técnicos, algumas estratégias de oratória que causaram polêmica.
Alguns advogados optaram por discursos carregados de elogios aos ministros, o que levantou o debate: tratava-se apenas de uma tentativa legítima de ser gentil e simpático ou houve um exagero que soou como pura bajulação?
A arte de ser gentil
Ser cordial diante de uma Corte é, sem dúvida, uma postura esperada de qualquer advogado. Cumprimentar magistrados com respeito, reconhecer suas trajetórias e valorizar suas contribuições faz parte de um protocolo social aceitável e até recomendável. Essa cortesia reforça a credibilidade do orador e pode criar um ambiente favorável à escuta.
Por exemplo, reconhecer o trabalho de um ministro ao citar sua atuação anterior ou destacar sua dedicação ao serviço público pode ser lido como um gesto de gentileza estratégica.
Quando a linha se rompe: a bajulação
O que chamou a atenção nos dias de sustentações orais no STF, porém, foram os excessos. Um exemplo disso foi a fala do advogado Cezar Bitencourt, que defende o tenente-coronel Mauro Cid, ao se dirigir ao ministro Luiz Fux:
“Ministro Fux, sempre presente, sempre amoroso, sempre simpático, sempre atraente, como são os cariocas.”
Aqui, a escolha de adjetivos, especialmente “amoroso” e “atraente”, ultrapassou o tom institucional esperado, aproximando-se do discurso bajulador, que conseguiu arrancar risos dos que estavam presentes na Corte.
A mesma estratégia foi usada ao elogiar o ministro Flávio Dino:
“Vossa Excelência está acima disso, veio lá do norte, com a elegância, com a sabedoria, com o talento, tudo o que precisamos aqui.”
Além da gafe geográfica de classificar o Maranhão como “norte” em vez de “nordeste”, a fala evidenciou um exagero no esforço de agradar, provocando mais risadas na sessão.
Outro exemplo foi o do advogado Demóstenes Torres, defensor do almirante Almir Garnier, que dedicou mais de 20 minutos a elogios, chegando a dizer que admirava tanto o ex-presidente Jair Bolsonaro quanto o ministro Alexandre de Moraes. A tentativa de equilibrar-se em dois polos opostos da política brasileira soou menos como cortesia e mais como um exercício de bajulação calculada.
Equilíbrio nas estratégias de comunicação
A questão que fica é: esse tipo de discurso ajuda ou atrapalha? Do ponto de vista da comunicação, bajular em excesso pode fragilizar a credibilidade de quem fala. Quem assiste pode perceber o exagero como uma tentativa de desviar o foco da argumentação.
Já a gentileza equilibrada fortalece a imagem do advogado. Mostra respeito, empatia e inteligência emocional, sem escorregar para a adulação exagerada. Em um tribunal do porte do STF, a fronteira entre essas duas posturas pode ser decisiva para a percepção da seriedade do discurso.
O episódio das sustentações orais no julgamento dos acusados de tentativa de golpe mostrou que a comunicação vai além do conteúdo jurídico: ela também envolve forma, tom e intenção.
Luzimar Collares é jornalista em Cuiabá.