SANDRA ALVES

Nem braba, nem Amélia

SANDRA ALVES
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Nem braba, nem Amélia

A arte é um reflexo de comportamentos reais, mas ela não só reflete, como também reforça aquilo que fazemos ou aceitamos que façam com a gente.

E quando uma música diz: “Se mulher boa é mulher braba, a minha é a melhor do mundo”, ela não só traduz o momento emocional da nossa sociedade, como também aponta fenômenos sociais reais.

Estamos agora vivendo na era da mulher “braba”, da reação rápida, da força exibida, da voz alta, enfim, a lista pode ser longa.

Por outro lado, na década de 40, mais precisamente em 1942, aparece a figura da Amélia, “aquela que era mulher de verdade”. Eu não era nascida, acho que nem você era. Mas a história está aí para nos contar que foi um tremendo sucesso em todo o país, na era de ouro do rádio, a música se espalhou rapidamente. A letra retrata um ideal de mulher que era comum e até esperado na sociedade da época. “Amélia” se tornou um símbolo cultural usado como base em artigos de sociologia, antropologia e estudos de gênero, dentro e fora do Brasil.

Não é sobre defeitos, é sobre desequilíbrios

Falar sobre um fenômeno social real tão delicado, é pavimentar um caminho que poucos escolhem passar por ele. Atualmente há uma romantização da agressividade feminina. Ser “braba” virou símbolo de poder, mas na prática é a mulher impaciente, intolerante, cheia de gatilhos, que explode.

Além disso, a confusão entre autenticidade e descontrole é reforçada com bom humor nas rodas de conversa. Normaliza-se a brabeza como qualidade e o equilíbrio emocional como sem graça.

Para ilustrar isso, no início deste ano, enquanto visitávamos parentes na região sul do país, um primo perguntou ao meu marido: Vocês não brigam? Meu marido respondeu: Não! Mas nem uma briguinha de vez em quando, um ciuminho? Meu marido novamente respondeu: Não! Então ele disse: Ah, uma briguinha de vez em quando faz bem, senão perde a graça! E eu que estava calada, ri, satisfeita pelo nosso relacionamento, mas sem entender onde estava a graça nisso.

O meio termo do equilíbrio

Existe uma trilha que quase ninguém ensina: passear entre suas sombras sem se perder, e entre suas virtudes sem se iludir. Aí está o início da maturidade emocional. O poder que não está na agressividade e nem na passividade, ou seja, nem Amélia e nem a Braba. O estado da arte é conseguir controlar a própria energia.

Virtudes são qualidades elevadas do nosso caráter, aquelas que queremos exibir com orgulho. Sombras, representam as partes que queremos esconder, negar, reprimir, como: ciúmes, raiva, carência, orgulho, passividade, entre outros.

A sombra não é maldade e a virtude pode se tornar uma armadilha

Toda energia tem polaridade. Calibrar a percepção é entender que nada é só mau ou só bom. A raiva por exemplo, encarada como errada, feia, associada a pessoas descontroladas, tem um papel biológico e espiritual na nossa vida. É uma energia de proteção, não é sombra, é ferramenta. Sem raiva, você não diz “basta”. Sem raiva, você aceita tudo calada. Sem raiva, você perde a capacidade de autopreservação. Em contrapartida uma pessoa com esta energia em desequilíbrio, explode sem direção, machuca gratuitamente e tem acessos de ira. Nesse caso a raiva deixa de proteger e destrói conexões, reputação e relacionamentos.

E o que dizer da bondade? É uma virtude, não podemos negar! Quem não vai amar alguém leve, empático, que tem consciência do outro? Mas a armadilha se forma quando há desequilíbrio, porque o excesso de bondade vira ingenuidade. É quando a pessoa acredita em todo mundo, releva tudo, aceita migalhas achando que é amor, vira agradadora profissional. A bondade sem equilíbrio expõe você ao perigo.

Expanda sua consciência

Isso também se valida numa extensa lista de comportamentos, onde podemos observar o contraste entre a sombra e a virtude. Que tal fazer disso um exercício de forma intencional? O resultado disso poderá ser um refinamento da sua consciência.

Aprender a controlar a energia é aprender a tirar o melhor proveito das nossas emoções. Isso é autoconhecimento elevado.
E o que você vai fazer com essa informação valiosa?
E já que comecei falando de música, vou ficar aqui torcendo pra você não ser como uma outra mulher também homenageada numa música que foi sucesso em 1975: “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim, Gabriela!”.

Sandra Alves é Mentora de Relacionamentos e criadora do Método Aliança Interna, voltado para mulheres que desejam viver o amor com consciência, maturidade e auto valor.