Imagine uma infância sem telas, sem algoritmos, com os pés no barro e a cabeça nas nuvens. Assim começa a travessia de O Rio do Meu Quintal, novo livro do escritor Antonio P. Pacheco (Calendas Editorial, 236 pag.).
A obra resgata uma infância sensível, livre e profundamente conectada com os eventos históricos e afetivos do Brasil e do mundo entre as décadas de 60 e 90.
Nascido da inquietação de um “homem de dois séculos”, como ele mesmo se define, o livro é uma resposta literária à fragilidade da memória digital. “Memória orgânica precisa de caderno, livro, pedra, couro. Algo que resista ao tempo”, diz Pacheco, defendendo o papel da literatura como salvaguarda do vivido e do sonhado.
Protagonizado por Quinho, um menino que observa o mundo com espanto e ternura, o livro atravessa fatos marcantes como a chegada do homem à lua, os anos de chumbo da ditadura militar e a alegria contagiante do tricampeonato em 1970. Mas a política está ali como sombra, não como discurso. O que pulsa é a sensibilidade do olhar infantil diante de um Brasil dividido entre esperança e medo.
Mais do que contar uma história, o autor amplia um debate urgente: a necessidade de incluir a literatura produzida em Mato Grosso no currículo das escolas públicas. “De que adianta incentivar a produção se os livros não chegam ao leitor? Sem isso, não há mercado, não há cultura viva”, argumenta.
A publicação foi viabilizada pelo Edital Gambira, da Prefeitura de Cuiabá, com recursos da Lei Paulo Gustavo, um instrumento que Antonio Pacheco considera vital para a sobrevivência das artes fora do eixo comercial. “A arte não pode ser só mercadoria. É um direito básico do cidadão. E, por isso, precisa do apoio do Estado.”
Em tempos de distrações digitais e crises de pertencimento, O Rio do Meu Quintal é um lembrete lúdico de que a literatura ainda pode nos blindar contra a robtização, nos curar das urgências dos clics e apelos urgentes dos feeds, além de nos educar para o prazer de viver o presente e nos conectar com nossas raízes mais profundas.
CULTURA DE MT
O Rio do Meu Quintal resgata imaginação infantil e memórias sobre crescer no Brasil
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