Você pode conhecer profundamente um assunto e dominar o assunto sobre o qual está falando. Mas, em determinadas situações, a maneira como você usa a língua portuguesa também comunica quem você é profissionalmente.
Isso não significa transformar a comunicação em uma lista interminável de “certo” e “errado”. A língua é viva, muda, incorpora palavras, expressões e novos usos. E falar de maneira espontânea, em uma conversa entre amigos, não é a mesma coisa que fazer uma apresentação profissional, participar de uma entrevista, escrever um documento oficial ou representar uma instituição.
Comunicar bem também é saber adequar a linguagem ao contexto. E há situações em que conhecer e utilizar a norma-padrão demonstra preparo, cuidado e domínio do idioma.

Alguns erros aparecem com tanta frequência que já passaram a soar naturais. Um deles está na expressão de tempo.
- É muito comum ouvirmos: “Fazem dez anos que trabalho aqui.”
- O correto, na norma-padrão, é: “Faz dez anos que trabalho aqui.”
- Quando o verbo fazer indica tempo decorrido, ele é impessoal. Ou seja, não tem sujeito e permanece no singular.
Por isso:
- Faz dois anos.
- Faz dez meses.
- Faz muitos anos que não nos vemos.
Não importa se o período é singular ou plural: nesse caso, o verbo fica no singular.
Outro exemplo é uma expressão aparentemente simples: “estar em dia” ou “estar em dias”.
Quando queremos dizer que algo está atualizado, regularizado, sem pendências, usamos “em dia”.
- “As mensalidades estão em dia.”
- “Os documentos estão em dia.”
- “Estou em dia com minhas obrigações.”
Já “em dias” pode aparecer em outros contextos, quando “dias” é efetivamente um substantivo no plural, como em: “O trabalho foi concluído em dias diferentes.”
E chegamos a um erro bastante comum: “houveram”.
É frequente ouvirmos frases como:
“Houveram muitos problemas durante o evento.”
Na norma-padrão, quando o verbo haver é empregado com sentido de existir ou acontecer, ele é impessoal e deve permanecer no singular:
“Houve muitos problemas durante o evento.”
A regra também vale para o passado:
“Havia muitas pessoas na sala.”
E não: “Haviam muitas pessoas na sala.”
Uma forma simples de lembrar é substituir mentalmente o verbo “haver” por “existir”.
Se a frase for:
“Existiam muitas pessoas na sala”, o verbo “existir” concorda com “pessoas”.
Mas, com “haver” nesse sentido, temos:
“Havia muitas pessoas na sala.”
Não defendo uma comunicação engessada, artificial ou cheia de palavras difíceis. Defendo uma comunicação clara, adequada e consciente. No entanto, temos que admitir que dominar a língua portuguesa é uma habilidade importante e amplia as próprias possibilidades de comunicação. E quando você sabe como a língua funciona, pode escolher melhor como quer se expressar.