Um dos personagens mais comentados desta Copa do Mundo atende por um nome curioso: Vozinha. O goleiro da seleção de Cabo Verde, responsável por defesas decisivas no empate contra a Espanha, ganhou fama internacional. Em poucas horas, conquistou milhões de seguidores nas redes sociais e despertou a curiosidade do público sobre sua trajetória.
Entre as perguntas mais frequentes estava uma bem simples: afinal, por que ele é chamado de Vozinha?
A resposta vem da infância. Josimar Dias, hoje com 40 anos, costumava jogar futebol com garotos mais velhos. Quando perdia uma partida ou levava a pior em alguma disputa, voltava para casa emburrado. Os colegas zombavam dizendo que ele iria chorar e “reclamar com a vozinha”. O apelido pegou. E atravessou décadas até chegar aos gramados da Copa do Mundo de 2026.
A história é divertida e ajuda a explicar por que os apelidos fazem parte da cultura esportiva. No futebol brasileiro, eles são quase uma tradição. Pelé, Zico, Dunga, Cafu, Garrincha e tantos outros ficaram mais conhecidos pelos apelidos do que pelos nomes registrados em cartório.
Durante muito tempo, os apelidos ajudaram a construir identidades, aproximar atletas do público e criar marcas pessoais memoráveis. Alguns se transformaram em patrimônio cultural do esporte.
Mas os tempos mudaram. Especialistas em marketing esportivo observam que os apelidos já não são tão frequentes entre os atletas das novas gerações. Em um mercado cada vez mais globalizado, muitos profissionais preferem utilizar seus nomes reais ou versões mais neutras deles.
Há razões práticas para isso: facilitar o reconhecimento internacional, fortalecer a imagem profissional e evitar interpretações negativas em diferentes culturas. Além disso, existe uma preocupação crescente com algo que antes era frequentemente ignorado: o impacto emocional dos apelidos.
Nem todo apelido é uma demonstração de carinho ou uma brincadeira inocente. O que para uma pessoa parece engraçado, para outra pode representar constrangimento. Muitas vezes, apelidos surgem justamente a partir de características físicas, limitações, diferenças de comportamento, origem social, raça, idade ou condição de saúde. E é nesse momento que a comunicação deixa de ser afetuosa e passa a ser agressiva.
No livro Comunicação Violenta no Ambiente de Trabalho: Palavras que Ferem e Gestos que Machucam, o juiz do Trabalho Mauro Vaz Curvo faz um alerta importante. Segundo ele, brincadeiras, piadas e apelidos são comuns nos ambientes profissionais, tanto entre colegas quanto entre líderes e subordinados. O risco está no fato de que manifestações aparentemente inofensivas podem carregar conteúdo discriminatório ou ofensivo, gerando constrangimento, ferindo a dignidade das pessoas e até configurando assédio moral.
A questão central não é a existência do apelido em si. Existem apelidos que nascem do afeto, da amizade, da admiração e até da intimidade familiar. Eles aproximam pessoas e fortalecem vínculos. O problema surge quando quem recebe o apelido não se sente confortável com ele.
Na comunicação, existe uma regra simples que vale para diversas situações: a intenção de quem fala é importante, mas o efeito produzido em quem escuta é ainda mais relevante.
Por isso, antes de criar ou repetir um apelido, vale fazer uma reflexão: a pessoa gosta de ser chamada assim? Ela sorri por educação ou por que se sente confortável? O apelido destaca uma qualidade ou expõe uma vulnerabilidade? Se houver dúvida, talvez seja melhor chamar alguém pelo nome real.
Porque o nome é uma das formas mais respeitosas de reconhecer a identidade de uma pessoa. Já em relação aos apelidos, vai depender da maneira como são usados e do significado que assumem para quem os carrega.
No caso do goleiro Vozinha, o apelido atravessou décadas, se transformou em motivo de orgulho e agora, certamente, pode até funcionar como uma grife. Mas nem sempre é assim. Muitas pessoas carregam apelidos que gostariam de esquecer.