A derrota da seleção brasileira para a Noruega mexeu com muita gente.
Como brasileiros, é natural que o sentimento inicial seja de frustração. Ninguém entra em campo esperando perder. Ninguém torce para ver um sonho interrompido.
Mas, passado o calor da emoção, uma pergunta começou a ocupar meus pensamentos:
E se o placar nos convidasse a refletir sobre algo muito maior do que futebol?
Não me refiro a comparar países como se uma partida de futebol fosse suficiente para explicar décadas de políticas públicas, cultura e sistemas de educação. Seria uma simplificação injusta.
Enquanto discutíamos o resultado do jogo, me peguei pensando no que precisa acontecer muito antes de uma criança vestir uma camisa de seleção: a capacidade de esperar, de persistir, de lidar com a frustração, de assumir responsabilidades, de fazer escolhas e de compreender que nem toda vontade será atendida imediatamente.
Vivemos numa época em que o desconforto parece ter se tornado um inimigo.
Se a criança chora, buscamos distraí-la rapidamente. Se fica entediada, entregamos uma tela. Se encontra dificuldade, tentamos remover o obstáculo.
Sem perceber, estamos ensinando que qualquer incômodo precisa desaparecer o mais rápido possível, mas a vida não funciona assim.
É justamente por isso que a formação humana vai muito além de ensinar conteúdos escolares, e um adulto emocionalmente saudável aprendeu isso durante seu processo educacional.
A postura do atacante norueguês Erling Haaland após a partida contra a nossa seleção me chamou a atenção. Mais do que o resultado, foi a forma como conduziu sua comunicação, cuja provocação máxima foi: “ora, ora, ora...”.
Educar é ensinar que empatia também se aprende; que respeito não deve existir apenas quando perdemos, mas principalmente quando vencemos; que caráter não se desenvolve na ausência de desafios, mas na forma como aprendemos a atravessá-los.
Em sua coluna do dia 09/07/26, a jornalista Luzimar Collares fez uma observação que merece extrapolar as quatro linhas do campo:
"Quando deixamos de lado o futebol e olhamos para esse episódio sob a perspectiva da comunicação, encontramos uma lição valiosa. Quem vence tem duas escolhas: usar o sucesso para humilhar ou para inspirar. (...) A segunda constrói respeito, credibilidade e reputação.
Isso vale para atletas, líderes, empresas, políticos e para qualquer pessoa. Afinal, todos nós venceremos alguma disputa ao longo da vida: uma promoção, uma eleição, uma concorrência, uma negociação ou simplesmente um debate."
Enquanto lia, deparei-me com uma definição aprendida em meus estudos recentes: comunicação é sintoma. E a comunicação de um vencedor dificilmente nasce apenas do improviso.
Ela reflete algo muito mais profundo: a formação recebida, os valores assimilados e a maneira aprendida de enxergar o outro, inclusive nos momentos de superioridade.
Pesquisando sobre a criação das crianças norueguesas, percebi diferenças gritantes que refletem na forma como elas vão se posicionar na vida.
O sistema educacional norueguês é mundialmente reconhecido por priorizar a autonomia do aluno e o aprendizado prático em contato com a natureza, focando no desenvolvimento do pensamento crítico em vez de notas e competições apenas.
O país estimula e justifica o contato constante com o meio ambiente. Este hábito está enraizado na filosofia Friluftsliv, que significa "vida ao ar livre".
Esse estilo de vida é baseado na crença de que passar o tempo em ambientes naturais é fundamental para a saúde física, a clareza mental, a conexão com a herança cultural do país e o bem-estar espiritual.
Acredita-se que o ar livre reduz os níveis de estresse, diminui a ansiedade e melhora a qualidade de vida, sendo uma prática valorizada inclusive no ambiente de trabalho e na convivência familiar.
O ócio também é entendido como um momento de introspecção e controle emocional, em que recarregar as energias exige estar longe de excessos de estímulos visuais, sociais ou barulhos.
Ou seja, estímulo ao tédio saudável. As escolas priorizam brinquedos não estruturados, como gravetos e pedras, em vez de eletrônicos, forçando o cérebro a exercitar a criatividade, o foco e a cooperação social.
As famílias reforçam isso em casa como parte da cultura nacional.
A abordagem da Noruega em relação ao uso de telas na infância combina diretrizes rígidas de saúde pública, leis federais severas contra as Big Techs e um forte incentivo cultural à vida ao ar livre.
O país escandinavo decidiu assumir o controle da economia da atenção digital para proteger o desenvolvimento cognitivo de suas crianças.
Diretrizes Nacionais do Tempo de Tela
FAIXA ETÁRIA | RECOMENDAÇÃO OFICIAL DE TELA
Menores de anos | Zero tela
2 – 5 anos | Máximo de 60 minutos/dia
6 – 12 anos | Máximo de 90 minutos/dia
13 a 18 anos | Máximo de 180 minutos/dia
Quando as engrenagens familiares, escolares e governamentais operam em sincronia, todos usufruem de uma sociedade melhor.
Entendo, portanto, que a maior derrota de uma sociedade não acontece dentro de um estádio.
Ela acontece quando formamos uma geração que sabe consumir, mas não sabe esperar; que sabe desejar, mas não consegue perseverar; que conhece os próprios direitos, mas não compreende as próprias responsabilidades; que aprende a competir, mas não aprende a vencer com dignidade.
A educação permanece silenciosamente moldando as próximas gerações. E é justamente na formação, muito antes do apito inicial e muito depois do final de uma partida, que estamos decidindo os próximos resultados da nossa história.
O futebol passa, as manchetes desaparecem, mas aquilo que continua falando através de nós quando ninguém mais está ensinando permanece.
Fontes: mojanorwegia.pl
Revista Isto É
CNN Brasil
Christiane Indaiá
Graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce
Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II)
Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam
Certificada Cambridge
Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas