LUZIMAR COLLARES

Pressão e arrependimento no BBB 26 revelam o impacto das palavras

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Pressão e arrependimento no BBB 26 revelam o impacto das palavras

O encerramento nesta semana do BBB 26, um dos programas de maior audiência da TV aberta no Brasil, deixa mais do que vencedores e eliminados. Deixa também reflexões importantes, especialmente sobre comunicação.
A vencedora desta edição, Ana Paula Renault, construiu sua trajetória com um perfil de comunicação firme, direta e, ao mesmo tempo, estratégica. Em meio a conflitos e alianças, mostrou que, em ambientes de alta pressão, comunicar-se com clareza e intenção pode ser tão decisivo quanto qualquer outra habilidade dentro do jogo.

Se por um lado o programa evidenciou como uma comunicação bem conduzida pode fortalecer uma trajetória, por outro também expôs os riscos e impactos de falas que ultrapassam limites. Entre os episódios mais comentados desta edição está o protagonizado pela atriz Solange Couto, eliminada com rejeição expressiva após declarações consideradas insensíveis e violentas. Frases como “Eu nasci do prazer, não do estupro” e comentários sobre maternidade provocaram forte reação do público.

No dia seguinte à eliminação, em entrevista ao programa Mais Você, com Ana Maria Braga, a atriz demonstrou arrependimento, disse sentir vergonha do que tinha dito e atribuiu suas falas, em parte, à pressão do confinamento. Solange trouxe ainda uma questão relevante: reconheceu que cresceu ouvindo esse tipo de linguagem, que, por muito tempo, foi naturalizada em sua vida.

Para aprofundar a análise sobre as falas da Solange Couto, conversei com a psicóloga Rosangela Kátia S. M. Ribeiro, mestre em Psicologia Social e da Personalidade, doutora em Psiquiatria e Psicologia Médica, pós-doutora em Psicologia Clínica.

Segundo a psicóloga, reproduzir padrões de comunicação aprendidos na infância é relativamente comum, principalmente quando esses padrões envolvem agressividade, críticas constantes ou falas violentas. Isso acontece porque aprendemos a nos comunicar por observação, tendo como referência pais, cuidadores e professores. “Se a comunicação violenta era frequente na infância, ela pode ser internalizada como ‘forma padrão’ de se expressar”, afirma a especialista.  

Ela também explica que experiências emocionalmente marcantes tendem a deixar registros mais profundos, podendo ser reativados ao longo da vida adulta: 

“As experiências marcadas por medo, crítica ou agressividade ficam registradas de forma mais intensa.”

Apesar disso, Rosangela Mazzorana Ribeiro faz uma ressalva essencial: esse comportamento não é inevitável. “Tudo que é aprendido pode ser modificado”, diz a psicóloga. O primeiro passo para essa mudança é desenvolver consciência, perceber quando se está repetindo um padrão automático que, muitas vezes, já não representa quem a pessoa deseja ser.

Segundo a psicóloga, muitas falas agressivas são, na verdade, tentativas mal elaboradas de expressar sentimentos como frustração, mágoa ou insegurança. 

“A consciência é perceber quando você está repetindo esse padrão.”

A partir desse reconhecimento, torna-se possível construir uma comunicação mais saudável. O caminho está em nomear emoções e tornar a fala mais clara e objetiva. “Em vez de atacar, é importante identificar: ‘estou frustrado(a)’, ‘estou magoado(a)’.”

Na prática, isso significa substituir acusações por expressões baseadas na observação e na clareza dos sentimentos e necessidades.

Um exemplo simples ajuda a entender essa mudança:

  • Em vez de dizer: “Você nunca me escuta!”
  • Podemos reformular: “Quando você mexe no celular enquanto falo, eu me sinto ignorada. Preciso de atenção. Você pode me ouvir agora?”

A psicóloga orienta que o ideal é observar sem julgar, expressar sentimentos e fazer pedidos claros e diretos, um exercício que exige prática e que transforma relações. Nesse processo, o acompanhamento psicoterapêutico pode ser um aliado importante. Ele ajuda a elaborar experiências do passado e a construir novas formas de se comunicar mais respeitosas, mais claras e mais alinhadas com quem desejamos ser.

O episódio do BBB nos lembra que a pressão pode até revelar versões nossas que não gostamos de ver. Mas também nos mostra algo fundamental: reconhecer, refletir e mudar é possível. E isso passa, necessariamente, pela nossa comunicação.