Você recebe uma mensagem de aniversário. O texto é bonito, cheio de carinho. Mas basta uma rápida pesquisa para descobrir que a mesma mensagem circula na internet há anos.
Em outro momento, alguém responde à sua pergunta apenas com um emoji. Um áudio é ouvido em velocidade acelerada. Uma figurinha encerra uma conversa que merecia algumas palavras. E, cada vez mais, textos inteiros são escritos por inteligência artificial.

Não cabe a mim julgar se isso está certo ou errado. O que busco é provocar uma reflexão sobre as novas formas de comunicação. A tecnologia trouxe praticidade, aproximou pessoas e tornou a comunicação mais ágil. O problema começa quando a facilidade substitui o cuidado, quando o atalho toma o lugar da conexão.
Por isso surgiu a provocação no título deste texto: qual a influência dos três Ps que estão por trás de grande parte dessa mudança: pressa, praticidade e preguiça?
O primeiro P é a pressa
Queremos responder rapidamente, consumir conteúdos cada vez mais curtos e fazer várias coisas ao mesmo tempo. Ouvimos áudios na velocidade 2x, interrompemos antes que o outro termine a frase e, muitas vezes, respondemos sem realmente escutar.
Em outras edições desta coluna, já escrevi que escutar é uma das maiores demonstrações de respeito que podemos oferecer a alguém. Quem não dedica tempo para ouvir dificilmente consegue compreender de verdade. E compreender continua sendo uma das bases da boa comunicação.
O segundo P é a praticidade
Nunca tivemos tantas ferramentas para facilitar nossa rotina. Emojis, figurinhas, mensagens de voz, respostas automáticas, modelos prontos e inteligência artificial economizam tempo e resolvem inúmeras tarefas.
A tecnologia não é a vilã desta história. Pelo contrário, ela amplia possibilidades e democratiza o acesso à informação. Mas praticidade não pode significar ausência de intenção.
Uma mensagem pronta pode cumprir um protocolo. Uma inteligência artificial pode organizar ideias e produzir um excelente texto. Ainda assim, existem situações em que as pessoas não esperam apenas uma resposta. Elas esperam perceber que existe alguém, de verdade, do outro lado.
É aí que surge o terceiro P: a preguiça
Não me refiro à preguiça física, mas aquela que nos faz evitar o pequeno esforço de personalizar uma mensagem, escrever algumas palavras próprias, fazer uma ligação importante ou dedicar alguns minutos para construir uma conversa mais humana.
Quando deixamos que tudo seja automático, corremos o risco de automatizar também nossos relacionamentos. Comunicação é construir vínculos, fortalecer confiança e criar conexões.
Talvez o maior desafio da comunicação contemporânea não seja aprender a usar novas ferramentas. E, sim, não desaprender aquilo que sempre fez diferença nas relações humanas.
A tecnologia continuará evoluindo. Novos aplicativos surgirão. A inteligência artificial ficará cada vez mais sofisticada.
Mas nenhuma inovação será capaz de substituir um gesto de atenção, uma palavra pensada especialmente para alguém ou a disposição de ouvir com interesse real.
Pressa, praticidade e preguiça podem definir muitos dos nossos hábitos atuais. Só não podemos nos esquecer que existe um quarto P que continua sendo indispensável para quem deseja construir boas relações: presença.